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Se olharmos para a rotina do adulto na faixa dos 20 aos 40 anos, é fácil identificar um padrão de comportamento que beira a perfeição. São profissionais inseridos no mercado moderno, com mentes criativas e sendo indivíduos independentes que gerenciam suas responsabilidades, cumprem prazos complexos, lideram projetos, tentam investir em suas vidas pessoais e interesses, e, mesmo nas adversidades, sustentam todas as aparências sociais com aparente facilidade. Quem acompanha essas performances de longe enxerga estabilidade, competência, intencionalidade e aparente sucesso.
No entanto, posso afirmar que, nos bastidores da clínica psicológica, o que se revela é um diagnóstico completamente diferente. Existe um esgotamento muito específico que atravessa essas trajetórias. Não estou falando apenas de cansaço físico, de quem passou provavelmente o dia todo trabalhando e exercendo esforço corporal; estou falando de uma exaustão cognitiva profunda, um esvaziamento existencial crônico que costuma cobrar o seu preço mais alto na sexta-feira à noite, após uma semana cansativa em todos os aspectos possíveis.
Para sustentar essa imagem de eficiência e corresponder ao que o ambiente exige, as pessoas passam a operar num mecanismo silencioso, mas devastador: o da adaptação constante.
(Pessoas típicas fazem muito, mas pessoas atípicas fazem de uma forma surreal.)
Viver em modo de adaptação constante significa que você passa a calcular ativamente o impacto de cada fala antes de se expressar. Significa monitorar, pensar, planejar e ter clareza de todas as suas próprias expressões faciais, ensaiar conversas mentalmente, engolir reações espontâneas e antecipar as expectativas do outro para garantir que a sua postura seja sempre considerada conveniente, aceitável, normal, segura ou produtiva.
Na clínica, vejo esse esforço diariamente, no qual os pacientes tentam criar um padrão de normalidade e ocultar o seu real funcionamento, tentando parecer cada vez mais “normais” e performar mais o que é esperado pela sociedade. Esse padrão é formalmente denominado camuflagem social, ou masking.
Conforme demonstrado nos estudos de Hull e colaboradores (2017) em suas investigações sobre os padrões de camuflagem em adultos (“Putting on my best normal”), esse processo não é apenas uma escolha comportamental ou mero “jogo de cintura”. Trata-se de uma estratégia de sobrevivência social e de manejo de impressões que exige um esforço consciente contínuo. A pessoa passa por um processo diário, quase que o tempo todo, buscando performar normalidade e cumprir a expectativa das outras pessoas.
Desconstruindo o senso comum que enxerga essa exaustão como “falta de resiliência” ou “frescura”, a neurobiologia e a psicologia comportamental evidenciam que esse monitoramento em tempo integral consome uma energia cognitiva brutal. Como apontam os achados de Radley e colaboradores (2015) sobre os mecanismos subjacentes ao estresse crônico, a exposição prolongada a estados de hipervigilância e gerenciamento executivo gera uma sobrecarga direta nas funções do córtex pré-frontal, resultando em perdas na plasticidade cerebral e na capacidade de autorregulação.
Além disso, podemos perceber que minorias (como pessoas LGBTQIAPN+, neurodivergentes, mulheres e negros) sofrem muito com o que Meyer (2003) conceitua como Minority Stress (Estresse de Minorias). Trata-se do esforço diário para antecipar preconceitos, ler dinâmicas normativas e se moldar para sobreviver a ambientes corporativos e sociais rígidos, mas o preço por se camuflar para pertencer constantemente cobra uma conta inevitável: o esvaziamento do sentido de identidade. A perda da identidade, a frustração em torno de si mesmo e da forma como as pessoas se relacionam consigo provocam um distanciamento: a vida continua andando, os resultados continuam sendo entregues, mas você, que busca se adaptar constantemente, se sente cada vez mais de fora da sua própria história.
Experimentar esse esgotamento crônico não significa que você tem um defeito de fábrica ou que está “quebrado”. Significa apenas que o custo biológico e existencial de se anular para caber nas caixas do mundo esgotou a sua capacidade de funcionamento, e vai continuar lhe esgotando enquanto esse padrão não mudar.
É exatamente nesse ponto que a psicologia tradicional costuma falhar, e aqui eu preciso expor os meus critérios técnicos e declarar os meus princípios profissionais. Historicamente, a prática clínica foi muitas vezes instrumentalizada como uma ferramenta de mero ajustamento. Como denunciado pelo filósofo e historiador Michel Foucault (1961) em História da Loucura, os saberes psi frequentemente operaram a serviço de uma engrenagem de normatização, desenhada para corrigir o sujeito que estava em descompasso e devolvê-lo útil, dócil e produtivo para as mesmas estruturas sociais que o adoeceram.
Eu recuso essa visão mecânica, fria e puramente adaptativa da clínica. O papel da psicoterapia, pautada na ciência e no respeito absoluto à singularidade, não é tornar o paciente socialmente conveniente ou ensiná-lo a tolerar o sufocamento com mais resiliência. Alinhando-me à perspectiva de Carl Rogers (1961) em Tornar-se Pessoa, compreendo que o processo terapêutico não deve visar à moldagem do sujeito para atender a expectativas externas, mas sim à remoção dos bloqueios que impedem a expressão da sua real identidade e o desenvolvimento de uma existência autêntica.
O consultório precisa ser um espaço legítimo de autonomia. É o lugar onde você deixa as máscaras na porta para entender, com critério e clareza técnica, a mecânica real do seu próprio funcionamento, compreendendo as suas necessidades, suas particularidades e os estigmas que são carregados durante toda a sua vida. Busco sempre validar a sua história e te auxiliar a mapear os seus padrões sem os filtros moralistas do senso comum. O objetivo da minha abordagem não é oferecer um manual de regras prontas sobre como você deve viver para agradar ao ambiente, mas sim fornecer a estrutura e o suporte analítico necessários para que você recupere os seus critérios internos de escolha e passe, finalmente, a governar a sua própria vida.
Parar de se adaptar àquilo que te anula, te prejudica e te causa sofrimento não é um comportamento disfuncional. É o início da sua saúde mental. Precisamos de mudança, sim, mas não para encaixar no que nos esgota, não para aprender a mascarar melhor, mas sim para melhorar nossa qualidade de vida.
Isso que você está sentindo não é aleatório. Existe uma lógica por trás, e a gente pode entendê-la.
O processo terapêutico que desenvolvo no meu consultório particular é desenhado especificamente para você, que precisa lidar com a constante necessidade de se ajustar e adaptar à rotina e ao dia a dia, e sente que tem algo errado,(mesmo se as coisas estão funcionando ou não). É para você, profissional que sente que tem a mente criativa, mas que enfrenta o desgaste crônico desse excesso de adaptação. Para você que sente que vem carregando estigmas que afetam o seu funcionamento, e que vive dentro de minorias que, até mesmo em espaços onde deveriam ser acolhidas, não encontram esse acolhimento. O foco do meu método clínico não é a conformidade, mas sim a construção de soberania psicológica e autonomia, criando um espaço de escuta, saúde e bem-estar, que potencialize sua vida e te ajude a lidar com o que é difícil.
Os atendimentos são estruturados de forma individual e personalizada, garantindo um ambiente de absoluto rigor técnico, sigilo e segurança para o tratamento dos dados e das sessões. Este espaço não é indicado para quem busca fórmulas mágicas de produtividade ou respostas prontas de manuais de autoajuda; ele é desenhado para quem está disposto a investigar a fundo os próprios mecanismos cognitivos e bancar as escolhas necessárias para viver sob os seus próprios termos.
Se você se identificou com o texto e com tudo o que foi dito, provavelmente você vem se esforçando mais do que seria saudável. O esforço diário para funcionar por fora pode estar criando um esvaziamento de quem você é por dentro. O próximo passo prático é estabelecer uma direção para o seu crescimento e irmos em frente no seu processo de recuperar seu bem-estar físico, mental e social.
Foucault, M. (1961). História da Loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva.
Hull, L., Petrides, K. V., Allison, C., Smith, P., Baron-Cohen, S., Lai, M. C., & Mandy, W. (2017). “Putting on my best normal”: Social camouflaging in adults with autism spectrum conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, 47(8), 2519-2534.
Meyer, I. H. (2003). Prejudice, social stress, and mental health in lesbian, gay, and bisexual populations: Conceptual issues and research evidence. Psychological Bulletin, 129(5), 674-697.
Radley, J., Morilak, D., Viau, V., & Campeau, S. (2015). Chronic stress and brain plasticity: Mechanisms underlying adaptive and maladaptive changes. Frontiers in Behavioral Neuroscience, 9, 93.
Rogers, C. R. (1961). Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes.