Leitura
30 min
esse texto foi construido a partir do nosso 10° episodio do “Chá com TEA” entitulado: #10 | TAG, Autismo e Altas Habilidades: As Múltiplas Faces da Ansiedade na Neurodivergência
No campo da psicologia e da neuropsicologia, o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) é frequentemente descrito como um quadro de apreensão e preocupação excessivas, persistentes e de difícil controle. Na prática clínica e nas discussões sobre saúde mental, a ansiedade tende a ser abordada a partir de rótulos universais. Contudo, a experiência ansiosa não ocorre em um vácuo fenotípico: a forma como o cérebro processa informações, percebe o ambiente e codifica estímulos altera substancialmente a manifestação e a dinâmica desse transtorno.
Neste texto fundamentamos o tema nas discussões e na experiência clínica exploradas no videocast e podcast Chá com TEA, analisamos como a TAG se comporta quando manifestada de forma isolada, quando associada ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) e quando combinada às Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD). O objetivo não é apenas diferenciar rótulos diagnósticos, mas compreender o perfil cognitivo e o contexto emocional de cada indivíduo, evitando a homogeneização do sofrimento e a simplificação da neurodivergência.
Em pessoas neurotípicas, o Transtorno de Ansiedade Generalizada (DSM-5-TR) caracteriza-se por uma hiperativação do sistema de resposta à ameaça voltada a eventos do cotidiano. As preocupações concentram-se em temas como saúde, finanças, desempenho acadêmico/profissional, dinâmica familiar e imprevistos diários.
Clinicamente, a TAG isolada opera por meio de:
Antecipação Catastrófica: Tendência contínua a projetar o pior cenário possível para situações com múltiplos desfechos válidos.
Necessidade de Controle Exógeno: Tentativa deliberada de antecipar e gerenciar variáveis para mitigar a sensação interna de vulnerabilidade.
Percepção de Excesso: O próprio indivíduo costuma reconhecer o caráter desproporcional ou invasivo de suas preocupações, embora encontre dificuldades no processo de regulação voluntária.
Sintomatologia Somática Clássica: Tensão muscular crônica, fatigabilidade, alterações no padrão de sono, hipervigilância e inquietação motora.
Nesse formato, o núcleo da ansiedade gravita em torno do medo da falha, da perda de controle e do julgamento social ou prático diante de demandas comuns da vida.
Quando o quadro ansioso se instala sobre um perfil neurobiológico autista, a fenomenologia do sofrimento altera-se significativamente. A ansiedade deixa de ser primariamente uma preocupação abstrata sobre o futuro e passa a ser uma resposta direta às barreiras de processamento e à imprecisão do ambiente.
Principais vetores da TAG no autismo:
Ameaça da Incerteza e Quebra de Previsibilidade: A alteração na rotina ou a ausência de scripts claros gera um estado de alerta fisiológico equivalente a uma ameaça real à integridade física.
Sobrecarga Sensorial e Antecipação do Estímulo: A ansiedade decorre frequentemente do medo antecipatório de ser exposto a ambientes ruidosos, iluminações agressivas ou texturas aversivas.
Custo Cognitivo do Masking: O esforço contínuo para camuflar características autistas e interpretar regras sociais implícitas sustenta um estado crônico de exaustão e hipervigilância social.
Manifestação Comportamental e Alexitimia: Devido à alta prevalência de alexitimia (dificuldade em identificar e nomear estados viscerais e emocionais), a ansiedade pode não ser verbalizada clinicamente como “estou preocupado”, mas manifestar-se por meio do aumento expressivo de stimmings (comportamentos autorregulatórios), recusa alimentar, elevação da rigidez cognitiva, ou descompensações do tipo meltdown (crise de sobrecarga) e shutdown (retraimento ou desligamento).
A convergência entre TAG e Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) — muitas vezes no contexto da Dupla Excepcionalidade quando sobreposta também ao autismo — produz um funcionamento ansioso de alta densidade cognitiva.
As principais dinâmicas desse perfil englobam:
Pensamento Arborescente e Ruminação Analítica: O indivíduo com AH/SD possui facilidade em gerar múltiplas conexões lógicas em curtos intervalos de tempo. Diante de uma incerteza, o cérebro projeta não apenas um cenário ruinoso, mas uma árvore inteira de ramificações catastróficas, resultando em hiperatividade mental contínua e exaustão.
Racionalização e Intelectualização dos Afetos: Há uma assimetria entre a capacidade teórica de explicar o próprio funcionamento e a habilidade real de sentir e metabolizar a emoção. A pessoa entende o conceito técnico da ansiedade, mas usa a lógica como defesa para evitar o contato com a dor emocional.
Ansiedade Existencial e Perfeccionismo Rígido: Observa-se a emergência precoce de dilemas filosóficos, preocupações com sistemas complexos (injustiça, finitude, futuro do planeta) e uma autocobrança severa orientada ao desempenho e à exatidão.
A Armadilha da Metacognição: Pensar sobre o próprio pensamento (metacognição elevada) faz com que o indivíduo analise a sua própria ansiedade de forma obsessiva, criando um ciclo de segunda ordem: a ansiedade de estar ansioso e a busca por esquemas perfeitos para neutralizá-la.
A tabela abaixo sintetiza a diferenciação clínica entre as três apresentações:
Diante da complexidade desses arranjos fenotípicos, intervenções genéricas baseadas puramente em protocolo padrão para ansiedade tendem a falhar se não levarem em conta o perfil neurobiológico do paciente.
Aprofundamento do Diagnóstico Diferencial: É crucial não confundir a rigidez cognitiva estrutural do autismo com a obsessão do TAG, nem tomar a hiperatividade cognitiva das Altas Habilidades por quadros puramente maníacos ou ansiosos primários.
Ajuste da Abordagem Terapêutica:
Na TAG isolada, o foco pode se centrar no reestruturamento de crenças e na tolerância à incerteza.
No autismo, a intervenção exige validação das demandas sensoriais, construção de previsibilidade, redução da necessidade de masking e acomodações ambientais reais.
Na superdotação, a terapia deve abordar o alívio do perfeccionismo, a integração entre o sentir e o pensar, e o manejo da ruminação arborescente.
Construção de Autoconhecimento e Desmistificação da Culpa: Compreender o próprio funcionamento neurodivergente permite substituir a narrativa de inadequação interpessoal por estratégias concretas de regulação e autocuidado
Compreender o Transtorno de Ansiedade Generalizada a partir da perspectiva neurodivergente é um passo fundamental para afastar a psicologia de práticas meramente normatizadoras. Nem toda ansiedade nasce do mesmo lugar, tampouco responde às mesmas estratégias. Reconhecer a sobreposição entre TAG, autismo e altas habilidades/superdotação permite construir abordagens terapêuticas mais precisas, humanas e alinhadas às reais necessidades de cada indivíduo.
American Psychiatric Association. (2023). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR (5ª ed. texto revisado). Artmed.
Attwood, T. (2007). The Complete Guide to Asperger’s Syndrome. Jessica Kingsley Publishers.
Dabrowski, K. (1972). Psychoneurosis Is Not An Illness. Gryf Publications.
Grandin, T., & Panek, R. (2013). O Cérebro Autista: Pensando Através do Espectro. Record.
Hull, L., Petrides, K. V., Allison, C., Smith, P., Baron-Cohen, S., Lai, M. C., & Mandy, W. (2017). “Putting on My Best Normal”: Social Camouflaging in Adults with Autism Spectrum Conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, 47(8), 2519–2534.
Kanner, L. (1943). Autistic disturbances of affective contact. Nervous Child, 2, 217-250.
Silverman, L. K. (2002). Upside-Down Brilliance: The Visual-Spatial Learner. DeLeon Publishing.
Webb, J. T., Gore, J. L., Amend, E. R., & DeVries, A. R. (2016). Misdiagnosis and Dual Diagnoses of Gifted Children and Adults: ADHD, Bipolar, OCD, Asperger’s, Depression, and Other Disorders (2nd ed.). Great Potential Press.