Mário Psicólogo

Leitura

30 min

Diagnóstico Tardio: Todo mundo agora tem autismo, TDAH e AH/SD?

Este artigo foi inspirado no terceiro ep de “chá com TEA” que gravamos para o nosso canal do YouTube, onde eu e a psicóloga Noemi conversamos sobre a neurodivergência na vida adulta. Para além do que foi falado no vídeo, reunimos aqui os principais manuais diagnósticos e artigos científicos da área para aprofundar o tema e oferecer um guia completo de psicoeducação para o site.

Um fenômeno de proporções profundas tem tomado conta das discussões sobre saúde mental na internet, nas rodas de conversa e, de forma muito acelerada, nos consultórios de psicologia e psiquiatria: o crescente número de diagnósticos de condições do neurodesenvolvimento em pessoas adultas. Estamos falando, principalmente, da identificação tardia do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e das Altas Habilidades/Superdotação.

Muitos indivíduos passam décadas experimentando uma sensação crônica de desajuste, sendo frequentemente rotulados como desatentos, preguiçosos, “esquisitos”, “intensos” ou ouvindo que “têm muito potencial, mas falta foco”. Contudo, ao cruzarem a barreira dos 30 ou 40 anos, deparam-se com uma revelação que ressignifica toda a sua trajetória: seus cérebros apenas funcionam de uma forma diferente.

No vídeo mais recente do nosso canal, eu e a psicóloga Noemi debatemos a fundo essa realidade. Afinal, por que tantas pessoas só descobrem na vida adulta que sempre funcionaram de forma atípica?

Se você não assistiu ao episódio completo, vale a pena dar o play para acompanhar o nosso debate.

Abaixo, aprofundo os principais pontos que conversamos, trazendo o embasamento científico necessario.

Publicado em 23 de junho de 2026 - por "Chá com TEA"

Desmistificando a "Onda" de Diagnósticos: Por que Agora?

Uma das perguntas que mais recebemos no consultório e nas redes sociais é: “Por que parece que todo mundo virou autista ou tem TDAH agora?”.

A resposta clínica é direta: essas condições não surgiram agora. O aumento de laudos reflete uma mudança expressiva no acesso à informação, uma evolução técnica nos critérios diagnósticos e um refinamento na capacidade dos profissionais em reconhecer perfis que antes passavam totalmente despercebidos pela medicina tradicional. Não se trata de uma “moda” ou de um “romantismo da internet”, mas sim do resgate histórico de pessoas que passaram a vida invisíveis por causa de estereótipos antigos.

O Fenômeno da Camuflagem Social e do Mascaramento (Masking)

Como a Noemi explicou muito bem no vídeo, o motivo de muitos adultos passarem batidos na infância tem um nome: mascaramento social (masking).

Durante o crescimento, indivíduos neurodivergentes frequentemente desenvolvem estratégias compensatórias exaustivas para mimetizar comportamentos neurotípicos, reprimir traços nativos e camuflar suas dificuldades reais. O objetivo básico é apenas um: sobrevivência social e aceitação.

Esse processo é ainda mais severo em mulheres e em pessoas com perfis menos estereotipados. Como as manifestações em meninas tendem a ser mais internalizadas ou expressas através de uma exaustiva adequação social, elas raramente são identificadas na escola.

Entretanto, o custo dessa adaptação artificial é extremamente alto. Na vida adulta, a conta chega. A sobrecarga gerada pelo acúmulo de responsabilidades e as demandas profissionais, os prazos, boletos, gestão de casa e relacionamentos, esgotam os recursos cognitivos. O sistema psíquico entra em colapso e o mascaramento desaba, tornando as características do transtorno evidentes e forçando a busca por ajuda especializada (VOLKMAR et al., 2014).

O Impacto Emocional: Entre o Alívio e o Luto

Receber um diagnóstico tardio evoca sentimentos mistos, um verdadeiro turbilhão na identidade do indivíduo. No vídeo, dividimos essa experiência em dois grandes eixos:

  • O Alívio Imensurável: O paciente finalmente compreende que suas barreiras diárias nunca foram defeitos de caráter, falta de vontade ou preguiça, mas sim uma característica neurobiológica estrutural. Dar um nome para o que se sente traz validação e a sensação de conseguir organizar um quebra-cabeça que parecia permanentemente sem peças.

  • O Processo de Luto e Choque: Paralelamente ao alívio, o adulto é confrontado com uma revisão dolorosa de sua própria biografia (BARKLEY, 2018). Surge a dor pelo tempo perdido e o questionamento sobre como teria sido a própria vida se o suporte adequado tivesse sido oferecido na infância ou juventude. É preciso tempo para chorar pela criança desamparada que ele foi.

A Rigor da Validação Científica: O Papel do DSM-5-TR

  • Para afastar a complexidade dessas condições da banalização promovida por testes rápidos e superficiais do TikTok, a ciência médica e a psicologia utilizam critérios rigorosos de validação.

    A nossa grande baliza internacional é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR), publicado pela Associação Psiquiátrica Americana (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2022). O manual funciona como um guia de navegação unificado: ele garante que profissionais em qualquer lugar do mundo utilizem exatamente os mesmos critérios clínicos, evitando achismos.

Arquitetura Intrauterina: A Pessoa Já Nasce Neurodivergente

Um dos pontos que a neurociência moderna mais reforça, e que ajuda a derrubar de vez a ideia de que a neurodivergência surge por conta do ambiente ou do excesso de telas, é o fato de que o indivíduo já nasce neurodivergente. A fiação do cérebro atípico é desenhada muito antes do primeiro choro na sala de parto.

Durante o desenvolvimento embrionário e fetal, ocorre um processo complexo chamado neurogênese (a criação dos neurônios) e a posterior migração neuronal, onde as células cerebrais viajam para ocupar seus lugares definitivos no córtex. Conforme demonstrado nos estudos pioneiros de Pasko Rakic (2006) sobre a organização do córtex cerebral, é precisamente nessa fase intrauterina, sob a influência de fatores genéticos e hereditários profundos, que a arquitetura do cérebro é estruturada.

No cérebro de uma pessoa com TDAH, autismo ou superdotação, essa organização celular e a densidade das conexões sinápticas seguem uma geometria única desde o útero. O ritmo de poda neural (o descarte natural de conexões ociosas) e a velocidade de maturação do sistema nervoso central ocorrem em um compasso diferente do padrão neurotípico. Portanto, antes mesmo de nascer, o bebê já possui um hardware feito sob medida, uma fiação biológica singular que vai ditar a forma como ele filtrará o mundo, processará estímulos e se comunicará por toda a sua existência.

As Três Regras de Ouro e os Critérios do DSM-5-TR

Para que um diagnóstico na vida adulta seja validado, os sintomas não podem ser apenas “características soltas”. O DSM-5-TR exige o cumprimento rigoroso de três regras de ouro fundamentais, aplicadas de forma específica para cada perfil:

1. Início Precoce (Sinais desde a Infância)

  • No TDAH: O manual exige a presença de sintomas persistentes de desatenção, desorganização e/ou hiperatividade-impulsividade antes dos 12 anos de idade (MATTOS, 2015).

  • No Autismo (TEA): Os sinais de desafios na comunicação social, na interação e os padrões comportamentais restritos ou repetitivos devem estar presentes no período inicial do desenvolvimento, mesmo que só se tornem totalmente manifestos mais tarde, quando as demandas sociais excedem as capacidades limitadas da pessoa (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2022).

  • Na Superdotação: Embora não seja classificada como um transtorno de saúde mental no DSM-5-TR, o desenvolvimento assíncrono (onde o intelecto avança muito mais rápido que o lado emocional) e a alta curiosidade epistêmica também se manifestam desde os primeiros anos de vida (MALLOY-DINIZ et al., 2018).

2. Consistência (Transversalidade)

  • A atipicidade não escolhe hora para acontecer; ela é a forma como o cérebro processa o mundo em tempo integral. Portanto, o padrão deve se manifestar de maneira prejudicial em pelo menos dois ambientes diferentes (como no trabalho e no casamento; ou na vida acadêmica e no convívio familiar).

    • No TDAH: A pessoa perde prazos e se distrai tanto no emprego quanto na gestão das contas e rotinas domésticas.

    • No Autismo: A sobrecarga sensorial (hipersensibilidade a sons ou luzes) e a dificuldade de ler entrelinhas ou pistas sociais acontecem tanto em reuniões profissionais quanto em festas de família.

    • Na Superdotação: O tédio crônico por falta de estímulo, o pensamento hiperramificado e a necessidade de profundidade nas discussões ocorrem tanto na carreira quanto nos círculos sociais íntimos.

3. Prejuízo Real ou Sofrimento Funcional

  • Esquecer as chaves, ter manias ou ser muito inteligente são traços que podem fazer parte da experiência humana comum. O diagnóstico só se consolida quando essas características geram um impacto crônico severo, sofrimento psíquico latente ou perdas significativas na qualidade de vida.

    • No TDAH: O prejuízo se traduz em exaustão mental crônica, instabilidade profissional crônica e sentimento constante de incapacidade (BARKLEY, 2018).

    • No Autismo: O impacto aparece no esgotamento extremo após interações sociais (autistic burnout), na dificuldade crônica de manter vínculos afetivos estáveis e na rigidez cognitiva que trava a flexibilidade do dia a dia (VOLKMAR et al., 2014).

    • Na Superdotação: O prejuízo costuma surgir através do isolamento social por inadequação, da ansiedade existencial paralisante e do fenômeno do underachievement (subdesempenho), onde o indivíduo é tão cobrado ou fica tão entediado que acaba fracassando academicamente ou profissionalmente, apesar de sua capacidade intelectual superior.

Como Funciona o Diagnóstico na Prática?

  • No consultório, o processo é investigativo e detalhado. Vale frisar um ponto fundamental: não existem exames de sangue, mapeamentos genéticos ou ressonâncias magnéticas que confirmem o TDAH, o autismo ou a superdotação. O diagnóstico em saúde mental é essencialmente clínico, histórico e transversal.

    Ele costuma ser construído através de uma abordagem detalhada e profunda:

    1. Avaliação Psiquiátrica: Focada na anamnese clínica, diagnóstico diferencial e na exclusão ou identificação de comorbidades (como ansiedade e depressão).

    2. Avaliação Neuropsicológica: Um mapeamento aprofundado conduzido por psicólogos especialistas. Através de entrevistas retrospectivas, inventários de sintomas e o uso de testes psicológicos validados, o neuropsicólogo mensura quantitativa e qualitativamente as funções cognitivas, como memória, atenção, raciocínio lógico e funções executivas (MALLOY-DINIZ et al., 2018).

Recebi o Laudo. E Agora?

  • Como costumo dizer aos meus pacientes, o laudo não é uma sentença ou um rótulo de limitação; ele é um manual de instruções.

    Até ali, o adulto passou a vida inteira tentando rodar um aplicativo desenvolvido para o sistema iOS dentro de um aparelho com hardware Android. O diagnóstico revela o real sistema operacional do indivíduo, permitindo que ele pare de fazer uma força hercúlea para performar uma “normalidade” que o adoece e comece a adaptar o ambiente às suas necessidades reais.

    Os próximos passos para construir uma vida mais sustentável e saudável envolvem um suporte multidisciplinar:

    • Psicoterapia: Fundamental para a psicoeducação (entender o seu cérebro na prática), criação de estratégias de rotina personalizadas e tratamento das feridas emocionais acumuladas por anos de incompreensão.

    • Acompanhamento Psiquiátrico: Avaliação da real necessidade e viabilidade do suporte farmacológico para ajudar na regulação química do cérebro.

    • Ajuste no Estilo de Vida: Cuidados com a higiene do sono, manejo adequado de estímulos sensoriais e cognitivos.

    • Autocompaixão: Reduzir a autocobrança e entender os seus limites individuais é o passo definitivo para transformar o autoconhecimento em liberdade.

    O autoconhecimento liberta, mas o suporte profissional é o que direciona. Se você se identificou com os pontos que conversamos no vídeo e neste artigo, não tente se diagnosticar de forma isolada pela internet. Procure um profissional de saúde mental capacitado.

  • veja todos os nossos conteudos em todas as plataformas clicando aqui!

Referências Bibliográficas

    • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). Washington, D.C.: American Psychiatric Association, 2022.

    • BARKLEY, Russell A. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade: Manual para Diagnóstico e Tratamento. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.

    • MALLOY-DINIZ, Leandro F. et al. Avaliação Neuropsicológica. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.

    • MATTOS, Paulo. No Mundo da Lua: Perguntas e respostas sobre o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade em crianças, adolescentes e adultos. 16. ed. Rio de Janeiro: Autores Associados, 2015.

    • RAKIC, Pasko. No neuron is an island: structural basis of cortical development and evolution. In: Frontiers in Neuroscience: Wiring the Brain. New York: Columbia University, 2006.

    • VOLKMAR, Fred R. et al. Diagnosis and management of Autism Spectrum Disorder in adults. BMJ, v. 349, 2014.

Scroll to Top