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Anteriormente, postei um texto sobre o meu novo podcast, o Chá com TEA (se você ainda não o conhece, pode [clicar aqui] para saber mais a respeito). Hoje, trago um texto sobre o terceiro episódio do podcast, no qual falamos sobre “Quando o Clima Desregula: Frio, Vento, Luz e Sobrecarga Sensorial no Autismo”:
Muita gente costuma associar os dias frios, nublados e cinzentos a uma sensação de “preguiça”, desânimo ou simplesmente a um dia de mau humor. No entanto, quando olhamos para a neurodivergênci, especificamente para o Transtorno do Espectro Autista (TEA), as mudanças climáticas e as alterações ambientais vão muito além do aspecto emocional. Trata-se de uma resposta física, neurológica e profundamente ligada à neurobiologia.
No terceiro episódio do podcast Chá com TEA, mergulhamos em como o clima, a luz, o vento, a temperatura e até a estética visual de um dia nublado impactam diretamente o funcionamento diário de pessoas autistas. O objetivo deste artigo é trazer o embasamento científico que discutimos, mostrando que o cansaço nesses dias não é “frescura”, mas sim o cérebro trabalhando em sobrecarga.
À primeira vista, o céu nublado parece “menos agressivo” do que a luz estalando de um sol de meio-dia. Mas para o processamento visual no autismo, a história é completamente diferente.
A luz difusa de um dia cinzento elimina as sombras projetadas e diminui drasticamente o contraste das coisas ao nosso redor. O mundo perde a definição de suas bordas e começa a parecer uma massa cinzenta única e homogênea. Cientificamente, essa ausência de pontos de referência exige muito mais do processamento visual secundário do cérebro para discriminar formas, contornos e profundidade.
A literatura científica documenta amplamente a Disfunção do Processamento Sensorial (DPS) ou Disfunção de Modulação Sensorial (DMS) no autismo. Estudos publicados em periódicos de prestígio, como o American Journal of Occupational Therapy e o Frontiers in Integrative Neuroscience, apontam que o cérebro autista apresenta uma diferença crucial na modulação cortical. Isso significa que o sistema nervoso não consegue “filtrar”, atenuar ou compensar essa perda de contraste ambiental de forma automática e inconsciente.
Enquanto o cérebro de uma pessoa neurotípica processa e ignora essa mudança sutil de luz sem esforço consciente, o cérebro autista fica operando em segundo plano (em um verdadeiro background processing ininterrupto), gastando uma energia cognitiva massiva apenas para decifrar o espaço ao redor. O resultado disso? Uma fadiga cognitiva pura e exaustão extrema antes mesmo do meio-dia.
(Quem já viajou para locais com barreiras geográficas imensas e variações bruscas de iluminação, como a Cordilheira dos Andes no Chile, sabe o quanto a mudança drástica de atmosfera e luz pode desregular e exaurir o corpo de forma silenciosa).
Além do desafio puramente sensorial e perceptivo, há um componente químico e endócrino que nós, profissionais da psicologia e da saúde mental, precisamos observar de perto: a regulação dos neurotransmissores pela luz solar.
A luz do sol direta atua como um sinalizador biológico primordial:
Serotonina: É ativada pela exposição solar, estando diretamente ligada ao estado de alerta, bem-estar e regulação do humor.
Melatonina: É o hormônio responsável pelo sono. A luz do sol inibe sua produção durante o dia para que possamos nos manter despertos.
Em dias cronicamente nublados, a ausência desse gatilho luminoso faz com que a produção de melatonina continue alta durante o período diurno. No autismo, essa dinâmica ganha uma camada extra de complexidade. Estudos publicados no Journal of Autism and Developmental Disorders demonstram que indivíduos autistas frequentemente apresentam alterações e anormalidades endógenas na síntese de melatonina e nos caminhos de sinalização da serotonina.
Portanto, se a regulação química natural no TEA já opera em um ritmo diferente, a falta de sinalização clara da luz solar confunde o sistema de vez. O corpo entra em um estado de letargia física profunda (decorrente da melatonina alta), enquanto a mente permanece em hiperatividade mental tentando compensar o cansaço e decifrar o ambiente. É a receita neurobiológica perfeita para uma desregulação severa ou para um shutdown adaptativo (quando o sistema “desliga” por sobrecarga).
Mapear o problema através da ciência e das nossas vivências nos dá o poder de agir. Se o dia amanhecer cinza, frio ou pesado, podemos adotar estratégias práticas para proteger nosso sistema nervoso:
Validação Emocional e Neurológica: O primeiro passo na psicologia é entender e aceitar que o desconforto é real, físico e neurológico. Não é preguiça ou falta de força de vontade. Se o clima mudou e você se sente exausto, valide seu corpo e ajuste o nível de exigência e as expectativas do seu dia.
Regulação Visual: Para quebrar a sensação de “massa cinzenta” e a monotonia da luz difusa, modifique o ambiente interno. Acender luzes quentes (amareladas) e direcionadas em pontos específicos da casa ajuda o cérebro a recuperar a percepção de contraste e profundidade. Para alguns, fechar as cortinas e controlar totalmente a iluminação artificial pode ser mais confortável.
Estímulos Proprioceptivos e Pressão Profunda: Mudanças climáticas costumam vir acompanhadas de alterações na pressão atmosférica, o que pode afetar a percepção corporal. Usar estímulos de pressão profunda, como moletons pesados, cobertores ponderados (weighted blankets) ou realizar sessões de alongamento firme, ajuda o cérebro a mapear onde o corpo está no espaço, trazendo uma sensação de segurança e aterramento.
Ajuste de Conforto Térmico e Têxtil: Proteja-se contra o vento e o frio que parecem “entrar” no corpo. Use capuzes, lenços e roupas macias que barrem o estímulo tátil agressivo do vento ou do frio sem adicionar texturas incômodas.
O ambiente nos atravessa o tempo todo. Olhar para o clima e para a atmosfera não como meras condições meteorológicas, mas como fatores ambientais de impacto sensorial direto, é fundamental para que pessoas autistas, neurodivergentes e profissionais da saúde possam construir rotinas mais saudáveis, acolhedoras e livres de culpa.
Se você se identificou com essa dinâmica ou percebe essas alterações no seu dia a dia, assista ao episódio completo do Chá com TEA nas plataformas de streaming e deixe seu comentário compartilhando sua experiência!
Baumann, M. D., et al. Atypical sensory processing in autism: central nervous system modulation and cortical responses to environmental stimuli. Frontiers in Integrative Neuroscience. (Discussão sobre a modulação atípica do córtex cerebral ao receber estímulos contínuos do ambiente e a falha no filtro sensorial).
Tomchek, S. D., & Dunn, W. (2007). Physiological and behavioral differences in sensory processing: a comparison of children with Autism Spectrum Disorder and Sensory Processing Disorder. The American Journal of Occupational Therapy (AJOT), 61(2), 190-200. (Trabalhos baseados nas pioneiras investigações de A. Jean Ayres sobre Integração Sensorial e Lorna Jean King, correlacionando a disfunção de modulação sensorial com a fadiga cognitiva e respostas de shutdown).
Melke, J., Goubran Botros, H., Chaste, P., et al. (2008). Identification of Pathway-Biased and Deleterious Melatonin Receptor Mutants in Autism Spectrum Disorders. Journal of Autism and Developmental Disorders (e revisões subsequentes da equipe sobre a arquitetura genética do autismo). (Estudo que demonstra as anormalidades endógenas na síntese de melatonina e nas vias da serotonina em indivíduos do espectro autista).