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Mortalidade Prematura e Expectativa de Vida no Transtorno do Espectro Autista (TEA)

A discussão sobre a expectativa de vida de pessoas autistas ganhou grande repercussão na comunidade científica e na opinião pública a partir de estudos epidemiológicos que apontaram uma grande vulnerabilidade a mortes precoces. O dado frequentemente citado de que pessoas autistas morrem “na casa dos 60 anos” (ou menos) tem fundamento em pesquisas populacionais reais. Contudo, a análise desse fenômeno exige rigor para diferenciar subgrupos dentro do espectro e compreender que as causas de mortalidade não decorrem da biologia do autismo em si, mas de comorbidades médicas e profundas falhas socioambientais.

Publicado em 11 de junho 2026

O Contexto dos Dados: Dos 40 aos 75 Anos

O marco inicial que consolidou o dado de mortalidade precoce foi um amplo estudo sueco publicado em 2016 (Hirvikoski et al.). Ao analisar mais de 27 mil pessoas autistas, os pesquisadores identificaram que a expectativa de vida média variava drasticamente conforme a presença de comorbidades:

   -Autistas sem deficiência intelectual: Apresentaram uma expectativa de vida média de 58 anos (cerca de 12 anos a menos que a população geral da época).

    -Autistas com deficiência intelectual associada: Apresentaram uma redução ainda mais severa, com a média de idade ao falecer situada em torno dos 39 a 40 anos.

Pesquisas mais recentes, publicadas após 2020, trouxeram correções estatísticas importantes a essa amostragem. Um estudo britânico de grande escala publicado em 2023 (O’Nions et al.) apontou que os dados anteriores sofriam de um “viés de diagnóstico”, pois capturavam majoritariamente autistas que já haviam passado por internações ou serviços psiquiátricos severos. Ao ampliar o escopo para a população geral do Reino Unido, o estudo estimou que a expectativa de vida real de autistas sem deficiência intelectual é de 74,6 anos para homens e 76,8 anos para mulheres. Embora o número seja significativamente maior do que o estimado em 2016, ele ainda permanece cerca de 6 anos abaixo da média das pessoas neurotípicas.

Em contrapartida, estudos asiáticos recentes continuam a registrar cenários desafiadores: uma pesquisa realizada na Coreia do Sul em 2024 (Kim et al.) analisou uma década de registros de óbitos e confirmou que a idade média de morte de pessoas autistas naquele país permaneceu severamente abaixo da média nacional devido a altas taxas de incidentes externos e autoextermínio.

Principais Causas da Mortalidade Prematura​

A literatura científica é unânime em afirmar que as causas de morte precoce são passíveis de intervenção e prevenção. Elas dividem-se em fatores clínicos e psicossociais:

    -Epilepsia e Condições Neurológicas: A coocorrência de epilepsia é um dos fatores mais determinantes para a mortalidade precoce, afetando de forma desproporcional autistas com maior nível de suporte e deficiência intelectual associada (Xiong et al., 2026; Shaw et al., 2024).

         -Suicídio e Saúde Mental: Para o grupo de autistas sem deficiência intelectual (nível 1 de suporte), o risco de morte por autoextermínio é estatisticamente muito superior ao da população geral. O esgotamento decorrente do masking (camuflagem social dos traços autistas) e a falta de suporte psiquiátrico adequado são os principais gatilhos (Dalvi-Garcia et al., 2025).

       -Acidentes e Afogamentos: Especialmente na infância e juventude, episódios de fuga involuntária (wandering) associados a dificuldades na percepção de riscos ambientais elevam os índices de mortes acidentais.

        -Barreiras no Acesso à Saúde: Um estudo brasileiro recente baseado na coorte de 100 milhões de cidadãos (Bonfim et al., 2024) investigou as taxas de mortalidade em autistas hospitalizados, evidenciando que falhas na atenção primária, atrasos diagnósticos de doenças crônicas (como neoplasias e problemas circulatórios) e a falta de preparo das equipes hospitalares para lidar com crises sensoriais agravam o prognóstico de pacientes autistas.

Concluindo:

Portanto, independente da idade do autista ou do seu nível de suporte, precisamos amparar e cuidar de toda a comunidade autista e dos neurodivergentes em geral. Ser autista demanda muita energia e muito esforço dentro de uma sociedade que foi feita apenas para pessoas típicas. As pessoas autistas podem, sim, ter muita qualidade de vida, desde que a sociedade se ajuste e se adapte para suprir as suas necessidades. Concluo mostrando que o autismo sem o suporte devido, em um ambiente hostil, pode sim colaborar para uma morte mais precoce; porém, são múltiplos os fatores sociais e de saúde que acarretam nisso.

idoso TEA

Referências Bibliográficas:​

Estudos Históricos e Marcos do Dado (Pré-2020)

  • HIRVIKOSKI, Tatja et al. Premature mortality in autism spectrum disorder. The British Journal of Psychiatry, v. 208, n. 3, p. 232-238, 2016. (Estudo sueco que originou o dado dos 58 anos para nível 1 e 39 anos para nível 3).

  • MOURIDSEN, Henning Kristian et al. Mortality, causes of death and mortality ratios in a sample of people with autism spectrum disorders. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 38, p. 1559-1566, 2008. (Estudo dinamarquês pioneiro demonstrando o dobro da taxa de mortalidade frente à população geral).

Estudos Recentes e Revisões (Pós-2020)

  • BONFIM, C. B. et al. Mortality rates among hospitalized individuals with autism spectrum disorder over a 10-year period in the 100 Million Brazilian Cohort. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, v. 73, 2024. (Estudo nacional mapeando o impacto das hospitalizações e causas de morte em autistas no sistema de saúde brasileiro).

  • DALVI-GARCIA, F. et al. Under-reporting of autism spectrum disorder in suicide deaths in Brazil: an analysis of the Mortality Information System. Trends in Psychiatry and Psychotherapy, (Ahead of Print), 2025. (Pesquisa brasileira recente correlacionando o TEA ao risco de suicídio e a subnotificação nos registros de óbito).

  • KIM, Y. S. et al. Patterns of Mortality among People with Autism Spectrum Disorder in South Korea. Iranian Journal of Public Health, v. 53, n. 4, 2024. (Estudo epidemiológico sul-coreano de 10 anos avaliando a idade média de morte e a prevalência de causas externas).

  • O’NIONS, Elizabeth et al. Premature mortality in autistic people in the UK: a population-based study. The Lancet Regional Health–Europe, v. 35, 2023. (Estudo da UCL que recalculou a expectativa de vida entre 74 e 76 anos, corrigindo vieses amostrais anteriores).

  • SHAW, K. A. et al. Mortality among youth and young adults with autism, intellectual disability, or cerebral palsy. Disability and Health Journal / PMC, 2024. (Análise de dados do CDC/EUA sobre os índices de risco de mortalidade na transição para a vida adulta).

  • XIONG, N. et al. Autism Spectrum Disorder in the Genomic Era: Integrating Etiology, Precision Diagnostics, Clinical Outcomes, and Emerging Gene-Editing Therapies. Neuropsychiatric Disease and Treatment, v. 22, 2026. (Revisão global recente reforçando o peso das comorbidades como a epilepsia na mortalidade do TEA).

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